Existe uma categoria de filmes que você precisa ver duas vezes: uma para entender o que está acontecendo, e outra para perceber que não importa. Suspiria é um desses filmes. Dario Argento dirigiu algo tão visualmente transtornado, tão comprometido com a sua própria lógica febril, que tentar racionalizar a narrativa é como tentar segurar água com as mãos.

A história, em teoria, é simples: Suzy Bannion, americana, chega à Academia de Ballet Tanz de Freiburg, na Alemanha. Mulheres começam a morrer de formas elaboradas e terríveis. Tem algo de errado no prédio. Fim do resumo. O que Argento faz com esse esqueleto de roteiro é transformá-lo em uma experiência sensorial que vai muito além do que qualquer sinopse consegue capturar.

A Cor Como Personagem

A primeira coisa que você precisa saber sobre Suspiria é que ele foi filmado com o processo Technicolor de três tiras — um método que estava tecnicamente obsoleto em 1977, mas que Argento insistiu em usar porque queria cores que não existem na realidade. E conseguiu. O vermelho de Suspiria não é vermelho. É uma declaração de intenção. É o vermelho de pesadelos que você tem aos oito anos e que não consegue descrever direito na manhã seguinte.

"Argento não fez um filme de terror. Ele fez uma pintura que respira e às vezes te mata."

Cada cena é compostas como um quadro expressionista. A iluminação não obedece a nenhuma lógica de fonte de luz — paredes azuis, tetos vermelhos, sombras que não deveriam existir. É deliberadamente irreal. Argento queria que o público sentisse que estava dentro de um conto de fadas adulto, e conseguiu isso com uma precisão que beira o sadismo.

O Goblin e o Terror Sonoro

Nenhuma análise de Suspiria está completa sem falar da trilha sonora. O Goblin — banda italiana de rock progressivo — criou algo que não tem categoria. Não é trilha de cinema de terror convencional. É parte da estrutura narrativa do filme. Os sussurros que abrem a obra ("witch... witch...") são tão perturbadores quanto qualquer imagem que vem depois.

A música aparece nas cenas de suspense com uma intensidade que quase te força a sair da poltrona. Depois, durante sequências mais calmas, ela continua — mais baixa, mais sinuosa, mas sempre presente. Você nunca está seguro.

Por Que Isso Importa Agora

O remake de Luca Guadagnino de 2018 é uma obra completamente diferente — mais literal, mais político, mais explicado. Ambos têm méritos. Mas o original de Argento pertence a uma categoria rara de filmes que funcionam precisamente porque não explicam nada. Porque confiam na imagem e no som para fazer o trabalho que as palavras nunca fariam.

Assista com o volume alto. Assista no escuro. Não leia a sinopse detalhada antes. Deixa Argento, em todo seu delírio magnificamente empenhado, fazer o trabalho.